Quando pergunto às mulheres que chegam ao meu consultório como está a saúde mental delas, a resposta mais comum é alguma variação de "estou bem, dando conta". E então, ao longo das sessões, vamos descobrindo juntas o que essa frase cobre: o cansaço que não passa, a irritabilidade que parece sem motivo, o prazer que foi sumindo das coisas que antes animavam, a sensação de estar sempre apagando incêndios sem nunca ter tempo para respirar.
"Dar conta" virou sinônimo de saúde mental — e essa confusão nos custa caro. Sobreviver não é o mesmo que viver. E a distância entre esses dois estados é exatamente onde mora o trabalho mais importante que podemos fazer por nós mesmas.
O que é saúde mental de verdade
A Organização Mundial da Saúde define saúde mental não como a ausência de transtornos, mas como "um estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza suas próprias capacidades, pode lidar com os estressores normais da vida, pode trabalhar de forma produtiva e frutífera e é capaz de contribuir para sua comunidade".
Repare nas palavras escolhidas: realizar capacidades, lidar com estressores, contribuir para a comunidade. Não é apenas a ausência do sofrimento — é a presença de algo positivo e ativo. É florescer, não apenas sobreviver.
O psicólogo Corey Keyes, da Universidade Emory, propôs o conceito de continuum de saúde mental — que vai além da divisão simplista entre "doente" e "saudável". Segundo ele, existem quatro estados possíveis:
- Florescendo (Flourishing): Bem-estar emocional, psicológico e social elevados. Alta satisfação com a vida, presença de emoções positivas, funcionamento social pleno.
- Saúde moderada: Nem doente nem florescendo — o estado de "estou bem, dando conta".
- Languescendo (Languishing): Ausência de saúde mental positiva, sem necessariamente ter um transtorno diagnosticável. Sensação de vazio, de estar em piloto automático, sem motivação ou sentido.
- Transtorno mental: Presença de sintomas que preenchem critérios diagnósticos para condições como depressão, ansiedade, TEPT, etc.
A grande revelação de Keyes: o languescimento — esse estado de não-doença mas também não-florescimento — é surpreendentemente prevalente e costuma ser ignorado porque não tem nome, não tem diagnóstico e não recebe atenção.
"Você não precisa estar deprimida para merecer cuidado. Você não precisa estar em crise para precisar de apoio. Languir em silêncio não é força — é a ausência de saúde."
Saúde mental além da ausência de doença
Há algo profundamente limitante em tratar saúde mental apenas como a ausência de diagnóstico. Esse modelo — herdado da medicina tradicional — nos leva a buscar ajuda apenas quando estamos em crise, quando os sintomas se tornaram insuportáveis, quando já perdemos muito tempo e energia resistindo.
A medicina preventiva há décadas entende que cuidar antes do adoecimento é mais eficaz e humano do que tratar depois da doença instalada. O mesmo vale — talvez ainda mais — para saúde mental. Psicoterapia preventiva, práticas de regulação emocional, cultivo de relacionamentos saudáveis, autoconhecimento: esses não são luxos reservados para quem tem diagnóstico. São investimentos em saúde.
Pensar em saúde mental como um espectro — e não como uma dicotomia — nos convida a fazer uma pergunta diferente. Em vez de "Estou doente ou não estou?", passamos a perguntar: "Onde estou no espectro? Em que direção quero caminhar?"
Os determinantes sociais da saúde mental em mulheres
Nenhuma pessoa existe no vácuo, e a saúde mental não é produzida apenas dentro da mente individual. Ela é profundamente moldada por contextos sociais, econômicos, culturais e relacionais.
Para as mulheres, esses determinantes têm características específicas que precisam ser nomeadas:
A carga invisível do cuidado: Estudos mostram que mulheres realizam, em média, o dobro do trabalho não remunerado de cuidado (filhos, idosos, casa) em relação aos homens. Esse trabalho é emocionalmente exigente, socialmente invisível e raramente reconhecido. O resultado é o que a pesquisadora Arlie Hochschild chamou de "dupla jornada" — e que hoje se expandiu para tripla ou quádrupla.
A pressão por perfeição: As mulheres são socializadas para serem "suficientes" em todas as frentes simultaneamente — profissional competente, mãe presente, parceira afetiva, filha disponível, amiga confiável, corpo dentro dos padrões. O gap entre essa expectativa impossível e a realidade gera culpa crônica.
Violência e insegurança: Uma em cada três mulheres no mundo já experienciou violência física ou sexual. O impacto na saúde mental é devastador e de longo prazo — e raramente é tratado como a crise de saúde pública que é.
Flutuações hormonais: Síndrome pré-menstrual intensa, PMDD, pós-parto, perimenopausa — todas essas transições têm impactos reais na neurobiologia da saúde mental feminina, e todas são historicamente subdiagnosticadas e subtratadas.
Barreiras de acesso ao cuidado
Saber que precisa de ajuda e conseguir acessar essa ajuda são coisas muito diferentes. Várias barreiras sistêmicas e individuais dificultam que mulheres cheguem ao cuidado que precisam:
- Estigma: "Terapia é para fraco", "Eu deveria conseguir lidar com isso sozinha", "O que vão pensar de mim?"
- Tempo: Com múltiplas demandas, o cuidado de si fica sempre para depois.
- Dinheiro: Psicoterapia ainda é inacessível para muitas brasileiras.
- Normalização do sofrimento: "Todo mundo está assim" — como se o sofrimento coletivo tornasse o sofrimento individual menos digno de atenção.
- Falta de informação: Muitas pessoas não sabem o que a terapia oferece ou como funciona.
Cada uma dessas barreiras é real e merece ser reconhecida — sem que isso nos paralise. Porque mesmo dentro de contextos difíceis, há sempre algo que podemos fazer.
O que fazer hoje: ações acessíveis
Não estou aqui para pregar soluções simples para problemas complexos. Mas há ações que qualquer pessoa pode começar, com poucos recursos, a partir de hoje:
Nomeie o que está sentindo. A pesquisa em neurociência chama isso de "affect labeling" — nomear emoções reduz sua intensidade. Em vez de "estou um caos", tente: "estou sentindo ansiedade porque não sei o que vai acontecer". A especificidade é calmante.
Procure o CAPS da sua cidade. O Centro de Atenção Psicossocial oferece atendimento psicológico gratuito pelo SUS. As filas existem, mas o serviço também existe.
Explore abordagens de autocuidado baseadas em evidências: Apps de meditação guiada (como o Calm ou Headspace), exercício físico regular, redução do consumo de álcool e redes sociais — todos têm evidências robustas de impacto positivo na saúde mental.
Converse com alguém de confiança. Não para resolver — para ser ouvida. A conexão social é um dos recursos mais poderosos que existem.
Pesquise profissionais de saúde mental. Conselhos Regionais de Psicologia têm cadastros públicos. Há clínicas que oferecem atendimento em escala reduzida. Há psicólogos que atendem online, aumentando o acesso.
Desestigmatização: cada história contada abre espaço para outras
O estigma em torno da saúde mental mata. Literalmente — porque faz com que pessoas adiem a busca por ajuda até que a situação se torne uma emergência. E o antídoto para o estigma é sempre o mesmo: conversas honestas, histórias reais, humanização.
Quando você conta para uma amiga que está fazendo terapia, você abre uma porta que ela pode não ter conseguido abrir sozinha. Quando você fala sobre ansiedade no trabalho sem vergonha, você diz para quem está ouvindo que eles também não precisam ter vergonha.
A desestigmatização é um ato coletivo que começa em conversas individuais.
Por que pedir ajuda é ato de coragem
Nossa cultura confunde pedir ajuda com fraqueza. Associa a independência a não precisar de ninguém. Premia aquelas que "aguentam" sem reclamar. É uma confusão perigosa.
Do ponto de vista neurobiológico, o ser humano é uma espécie profundamente social. Nosso sistema nervoso foi construído para coregulação — para se acalmar e se organizar em contato com outros seres humanos seguros. Precisar de apoio não é falha — é biologia.
E do ponto de vista psicológico, reconhecer que algo precisa mudar e dar um passo em direção ao cuidado exige mais coragem do que continuar funcionando no piloto automático da sobrevivência. Pedir ajuda é interromper um padrão — e isso é ousado.
"Florescer não é um destino reservado para outras pessoas, para quando as circunstâncias mudarem, para quando você tiver mais tempo ou merecer mais. É uma possibilidade para você — agora, com a vida que você tem."
O caminho do sobreviver ao florescer não é reto nem rápido. Mas começa com uma decisão: a de se importar suficientemente consigo mesma para dar o próximo passo.
Referências Bibliográficas
World Health Organization. (2022). World Mental Health Report: Transforming Mental Health for All. WHO Press.
Keyes, C. L. M. (2002). The mental health continuum: From languishing to flourishing in life. Journal of Health and Social Behavior, 43(2), 207–222.
Keyes, C. L. M. (2021). Languishing. In The Oxford Handbook of Positive Psychology. Oxford University Press.
Hochschild, A., & Machung, A. (1989). The Second Shift: Working Families and the Revolution at Home. Viking.
World Health Organization. (2021). Violence Against Women Prevalence Estimates. WHO.
Lieberman, M. D., et al. (2007). Putting feelings into words: Affect labeling disrupts amygdala activity in response to affective stimuli. Psychological Science, 18(5), 421–428.
Você merece mais do que sobreviver.
Se este artigo tocou em algo que você já sabia mas não havia nomeado, talvez seja hora de dar o próximo passo. Estou aqui para acompanhar você nessa jornada.
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